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Com versos tidos como machistas, A Dama do Pagode defende: ‘Mulher pode ter o que quiser’


por Júnior Moreira Bordalo
Com versos tidos como machistas, A Dama do Pagode defende: ‘Mulher pode ter o que quiser’
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias
Quem acompanha a música baiana já deve ter escutado por aí que “chegou o novo hit dos paredões”. Apelidada pela imprensa como “a primeira cantora de pagode a quebrar a hegemonia masculina”, Allana Sarah, conhecida como A Dama do Pagode, vem conquistando cada vez mais espaço entre o público do seguimento. Para ela, as ideologias que apresenta em suas músicas fazem a diferença. “Na verdade, vejo as mulheres cantando as mesmas coisas que os homens. Vim nadando contra a maré do machismo, em defesa de mim e delas e isso fez conquistar a todos que entendem isso. Acredito que estou conseguindo me destacar por defender o que temos vontade de falar e as pessoas não querem revelar”, explicou em entrevista ao Bahia Notícias.

Esta discussão da falta de representantes femininas em um dos maiores gêneros baianos – que começou a ganhar força a partir de 1990 – é antiga. Nomes como Jade Girl, ex-integrante do Clube da Luluzinha; Raí Ferreira, irmã do cantor Buja Ferreira, da Timbalada; Aila Meneses; Katê; e Léo Kret – mulher trans – estiveram na batalha por visibilidade no gênero, mas enfrentaram resistência do seguimento. “Claudia Leitte começou no pagode, mas não ficou conhecida por isso. É difícil. Talvez, as mulheres gostem mais de ver homem cantando pagode, não sei. Se a gente for olhar, as letras são bem machistas. Talvez por isso tenhamos mais [cantoras] no samba”, opinou o colunista de música baiana Osmar Marrom.

Empresário e sócio fundador da Salvador Produções, escritório responsável por nomes como Léo Santana e a banda Parangolé, Marcelo Britto, acredita que a presença feminina no ritmo será fortalecida com o tempo, assim como ocorreu no sertanejo. “Ainda não enxergamos grandes artistas que pudessem ter essa representatividade. Fico ansioso para ter, porque acredito na possibilidade, mas é muito do momento. Marília Mendonça, por exemplo, abriu as portas para muitas meninas”, lembrou.

Já Xanddy, líder do Harmonia do Samba, pontuou que esse é um dos seus maiores questionamentos. “Intriga-me para caramba. Já acompanhei diversas mulheres que começaram no pagode e não decolaram. Tem umas coisas que não consigo explicar, como isso. Adoraria que tivéssemos representantes, uma mulher que explodisse no País inteiro e isso não aconteceu. Só Deus explica. Acho que o artista que faz uma boa música merece ir longe e ter o talento e a arte reconhecidos”, pontuou.
Em entrevista ao A Tarde, o mestre em estudos da cena do pagode baiano, Ledson Chagas, apontou que elas demoraram a despontar como protagonistas no gênero pela própria “dominação masculina no campo da produção musical”. “Sempre foi território do masculino, invisibilizando em letras a perspectiva e o desejo feminino. Nesse sentido, não contribuiu para o empoderamento das mulheres”, disse. O fato é que, até pouco tempo, o destaque às mulheres ficou reservado aos papéis de dançarinas ou backing vocals, assim como a própria A Dama.

CRÍTICAS
Com 300 mil seguidores no Instagram, só o clipe de sua música “Pirraça” acumula mais de um milhão e meio de visualizações. E, apesar de sucesso e de defender o feminismo, muitas pessoas também a critica por cantar versos que podem ser vistos como incentivo à opressão, fato que ela nega. “Incentivo uma relação em quatro paredes em que ela pode ter o que quiser. Eu, por exemplo, gosto do murrinho. Não canto: ‘pegue a mulher, espanque etc’. Não. Acho que, na minha visão sobre o feminismo, defendo os direitos iguais. Quando incentivo o ‘murrinho’ é porque eu gosto e outras pessoas estão nessa situação também”, defendeu-se.

Inclusive, aos 24 anos, Allana tem aprendido a lidar com os ataques nas redes sociais: “Bloqueio. Não tenho motivo para ler. Acho que não faz diferença um seguidor a mais, um a menos”. Recentemente, desabafou após ser criticada por namorar uma mulher de pele mais clara que a sua (veja aqui). “Já tive outros relacionamentos com brancas, loiras, negras, mas desta vez as pessoas viram isso como um afronte. A visão que se tem é que quando alguém começa a fazer dinheiro, procura logo uma pele branca. Acho que o preconceito vem disso aí, de achar que ‘por ser negro’ você não pode se relacionar com pessoas de pele mais clara”, opinou.

Não é difícil encontrar na internet pesquisas abordando a relação da ascensão social negra com o “branqueamento” das relações como um reflexo direto do racismo institucionalizado. O termo "palmitagem" é um dos mais usados nessa situação e diz respeito aos relacionamentos amorosos inter-raciais, especialmente entre um homem negro e uma mulher branca. “Existe uma ideia de que é preciso embraquecer a família. Isso continua. Geralmente os homens negros, que são hipersexualizados e que têm uma posição financeira melhor, buscam as mulheres brancas. O padrão de beleza é branco. A mulher que merece ser amada, a mulher que é humana, é a mulher branca", explicou a cientista política Nailah Neves, mestre em Direitos Humanos e Cidadania ao El País. 

Quanto a isso, A Dama descarta pensar assim. “Não sigo padrões, é personalidade minha mesmo. A gente recebe muitas críticas de todos os lados: por ser negra e namorar branca, por ser lésbica... as pessoas perguntam ‘por que você é lésbica e canta músicas para heterossexuais?’. Até no meu meio LGBT as pessoas me criticam. Sempre digo que minha orientação sexual não define minha musicalidade, não define minha vida. Não é porque sou isso que vou cantar isso”, criticou.

Inclusive, não será de se estranhar vê-la migrando do pagode em breve, pois seu estilo preferido é o rap. “Dentro de Salvador a primeira porta que se abre na música é o pagode. Acho que não tem outro estilo que você coloque a cara e a galera abrace de primeira. Porém, meu pagode é mais falado, misturo com o pop também, é diferenciado. Ainda estou me perguntando o que eu canto, ainda não achei uma palavra para definir o meu estilo musical”, confessou. Prova disso é que este será o seu primeiro ano no Carnaval de Salvador com a projeção alcançada nos últimos meses. Nos circuitos, seus repertórios contarão também com sucessos de Ludmilla – sua inspiração (veja aqui) –, Iza e Anitta.

Fonte Bahia Noticias

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